Vermelho, Branco e Sangue Azul

19/12/2019
cover for Vermelho, Branco e Sangue Azul post

Fonte: Isadora Zeferino – Reprodução

Eu hesitei muito sobre escrever ou não essa resenha. VBSA, embora um sucesso de vendas e um queridinho no coração de 9 a cada 10 leitores, não é um livro pra mim. Mas decidi que eu poderia falar sobre outra coisa, sobre outro aspecto no qual fiquei pensando: a tradução e sua importância para a conexão com o público.

Primeiro, uma rápida defesa tanto do livro quanto dos motivos que me levaram a não gostar gostaaar mesmo dele.

VBSA é um bom livro, e em algumas partes eu realmente me diverti com ele. O Henry é um personagem muito amorzinho. Sobretudo do meio para o final, a história ganha dimensões importantes em termos de política, sociedade, amor e representatividade.

É lindo que leitores LGBTQIA+ estejam recebendo obras divertidas e verdadeiras, que os coloquem em papel de protagonismo frente a clichês até então inéditos para o segmento. É mais lindo ainda que a gente possa se refugiar por algumas horas em uma realidade onde Donald Trump não existe. Eu só posso imaginar o quão "lavador de alma" seja finalmente poder ler um romance erótico e cheio de palavrão e que não foge das questões difíceis e ainda se identificar com tudo o que está acontecendo.

Eu entendo por que VBSA é adorado, entendo mesmo.

Fonte: @vodkarellart - Reprodução

Dito isso, ele não funcionou para mim simplesmente por gosto pessoal. Alex, o primeiro-filho descolado da presidenta dos EUA, tem um arquétipo que me incomoda um pouco. Esse mundo de celebridade, de festas, aparições públicas e reputação não é uma temática que geralmente me atrai em histórias. Me incomodo com as constantes menções à marcas e artistas, muitos dos quais eu realmente nem conheço, e não entendo nada de flertes via redes sociais (estou virando uma eremita trancada em casa, eu sei, haha), então fica difícil criar empatia pelo personagem. Não é uma realidade que eu compreenda ou que desperte minha curiosidade. Além disso, o Alex é bastante centrado em si mesmo por, sei lá, um terço da história, e isso me deixou bem fuén nos primeiros capítulos.

Do segundo terço do livro pra frente, porém, o Alex se abre mais, os personagens se tornam mais profundos e tridimensionais, os conflitos humanos aparecem (e o romance, aaaah, o romance!). E foi só aí que engatei com a leitura. Como as minhas expectativas estavam muito altas, fiquei com aquele gosto amargo na boca, mesmo tendo achado o final bonito.

Agora vamos falar sobre a tradução.

(Se você quiser saber mais sobre a história em si, recomendo esse vídeo do All About That Book.)

Antes que eu mate alguém do coração (quem sabe o próprio tradutor, coitado — alô Guilherme Miranda), adianto que vou falar bem das escolhas editoriais.

No texto original, já dá para notar que VBSA segue a abordagem de falar a mesma língua que os seus leitores. As referências, as gírias, o modo como os personagens interagem e experimentam a vida é bem contemporâneo, mesmo debaixo de todas aquelas camadas de glamour. Essa é meio que uma tendência para os livros do gênero, vide o maravilhoso Um Milhão de Finais Felizes, do Vitor Martins. Nesse sentido, VBSA segue direitinho a cartilha.

Fonte: Isadora Zeferino - Reprodução

Só que, na tradução, todas essas gírias e referências foram adaptadas. No texto, você vai encontrar memes e expressões que só mesmo um brasileiro entenderia. Quando peguei a primeira adaptação engraçadinha, lembro de parar um momento e pensar "hmm, mas um príncipe inglês nunca que falaria isso, ele não tem essa referência". E, num primeiro momento, a gente até pode pensar que isso torna o livro inverossímil.

Mas, de novo, vamos relembrar qual é a proposta de VBSA: conexão com os leitores. Representatividade. Trazê-los para um espaço de protagonismo e identificação.

Note que VBSA nem mesmo se propõe a ser um livro caxias em suas críticas. Ainda que tenha seus momentos (e eu cheguei a ficar de olhos marejados numa das cenas finais), ele é um livro muito mais voltado ao entretenimento, a trazer um clichê para ser saboreado e para colocar um sorriso na cara de quem tá lendo.

Isso aconteceria caso o público brasileiro se deparasse com uma linguagem distante da própria realidade? Talvez sim, mas possivelmente parte da magia seria perdida.

(Quem vier falar que focar em entretenimento é demérito vai levar peteleco na orelha.)

Se VBSA fosse uma ficção histórica, se a verossimilhança fosse um fator importante, se a gente estivesse tentando apresentar a perspectiva crua de ser um jovem da família real... Mas não é o caso.

Pensando nisso, lembrei de um artigo da Tor, escrito por Michael Livingston, que realmente me trouxe um olhar diferente da primeira vez em que eu o li. No artigo, Livingston, que é professor de cultura medieval, defende que Coração de Cavaleiro (sim, aquele filme de Sessão da Tarde com o Heath Ledger) é o melhor longa já produzido sobre as justas da Idade Média.

Fonte: Coração de Cavaleiro (2001) - Reprodução

Ok, ele está propositalmente exagerando, mas seu ponto é muito bom: ao inserir uma arquibancada cantando Queen e uma festa onde os casais dançam em movimentos sensuais que jamais seriam permitidos naquela época, Coração de Cavaleiro nos dá um retrato não do que uma justa era, mas da sensação que ela passava.

Uma competição desse tipo era um ponto alto na vida das pessoas. Era como um show de rock num estádio, como uma Copa do Mundo. E não porque as pessoas eram mais bobinhas naquela época, mas simplesmente porque a ótica era diferente. As lentes pelas quais analisamos as situações difere muito daquelas usadas na Idade Média.

Quando a gente pensa em um baile onde ninguém podia nem relar no outro sem pedir permissão por escrito antes, ele nos parece um jeito meio chato de gastar o nosso tempo livre. Mas aí você lembra da cena em Orgulho e Preconceito, em que Mr. Darcy segura a mão de Lizzie por um único segundo para ajudá-la a subir na carruagem e VRAU, de repente você entende o quão emocionante é tocar nos dedos de outra pessoa. E não porque de repente tocar numa mão virou o ápice erótico das nossas vidas, mas porque o filme conseguiu capturar e transmitir a sensação, a atmosfera.

Fonte: Orgulho e Preconceito (2005) - Reprodução

Sobre Coração de Cavaleiro, Livingston diz:

"In other words, there is a truth of historical reality, and then there is a truth of historical relationship — a difference between knowing the actual physical feel of the past and the relative emotional feel of it. This is not to say that anything goes and facts are no longer facts. As I’ve noted before, that’s pretty much my idea of Hell. Rather, facts have contexts, and that context drives our emotional responses to the facts. Because we don’t live in the fourteenth century, we don’t have the same context for a historically accurate jousting as a person would have had back then. A tournament back in the day was like the Super Bowl, but a wholly accurate representation of the event would not give us that same sense. Rather than pulling us into the moment, the full truth would push us out of it: rather than fostering the connection between the present and the past, it would have emphasized the separation. So Helgeland split the difference: he included tons of historical accuracies with non-historical familiarities."

Você não acha isso fascinante?? E, de fato, Coração de Cavaleiro era um dos filmes despretensiosos que eu mais gostava de ver na adolescência, mesmo cheio de problemas, porque quem é que não queria ver o Heath Ledger dançando e o Paul Bettany pelado e uma armeira mulher criando a melhor armadura do torneio ™ ?

É fascinante que, ao transportar uma história de um lugar para o outro (seja esse lugar outro tempo, outra cultura, outra fronteira, outra mídia), a tradução possa ter um papel tão impactante na história em si. E, é claro, tudo dependerá da proposta, do efeito que se deseja atingir. Cada caso exigirá uma análise, uma tomada de decisão sobre qual abordagem usar. É preciso encontrar o tom certo, uma verdadeira alquimia narrativa. E acho que VBSA faz isso de um jeito interessante.

Bem, fica aqui a lembrança de que eu não sou tradutora e nem fiz nenhum curso sobre o assunto, tá? Inclusive, aproveite para acompanhar os tradutores do mercado literário, escutar o que eles falam, trocar ideias. Minha missão era só colocar a pulguinha atrás da sua orelha mesmo. E, se você quiser continuar me ouvindo divagar sobre linguagem, escrevi também um outro texto, tempos atrás, sobre onomatopeias e a Terra Média.