Serpentário: inovador, perturbador e hilário

29/09/2019
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Fonte: Geeks United – Reprodução

Dentre as coisas que li do Felipe Castilho, com certeza Serpentário tornou-se a minha favorita. Ele é um livro… doido. Sem regras. Uma experiência de leitura em que o projeto gráfico se une com a prosa, com a forma, com cada tipografia e piadinha cretina colocada no momento certo.

Comprei meu exemplar lá em Porto Alegre, durante a Odisseia de Literatura Fantástica, pelas mãos do próprio Felipe (eleito por unanimidade miss simpatia de qualquer evento literário). No meio do burburinho de amigas e amigos empolgados com a obra, foi um desafio começar a leitura sem captar nada do contexto. Mas eu consegui. Não li nem as orelhas do livro. Apenas coloquei o bichinho no colo, virei a primeira página e fui.

Num resumo muito superficial, Serpentário acompanha a história de quatro amigos de infância, durante e após o evento traumático que marcaria suas vidas para sempre. Caroline, Mariana, Hélio e Paulo precisam voltar à praia em que se conheceram e resolver um punhado de assuntos em aberto.

Fonte: Tumblr – Reprodução

Difícil falar sobre Serpentário sem começar citando a riqueza dos personagens. Pela forma como a história é conduzida, e pela narrativa focada quase que inteiramente sob o ponto de vista de Caroline, é necessário muito borogodó do autor para tornar todo mundo interessante. Ainda mais num enredo em que toda ação e mistério possui viés simbólico, manifestando na realidade os medos e problemáticas de cada um. Felizmente, o Castilho parece guardar borogodó de sobra.

Dava para ter errado feio com os personagens. Ô se dava. Questões como religião, sexualidade, meritocracia, abuso, justiça social, exploração infantil… tudo num balaio só e explorado a fundo? Receita para o desastre se você não tiver bastante tato, sobretudo quando você não faz parte de um dos recortes sociais que está tentando representar.

Serpentário consegue mostrar realidades diferentes, sendo ao mesmo tempo crítico (no sentido de escancarar certos comportamentos) mas não reducionista (as questões são profundas, ninguém está confinado a estereótipos). O que chega a ser engraçado, já que a estrutura do livro não foca taaanto em fazer o leitor se sentir na pele dos personagens. Serpentário é mais como “observar de cima”, e nem por isso deixa de ser perturbador.

Aliás, queria comparar o livro ao primeiro episódio de Dark. Assim como a série, Serpentário não é algo que eu classificaria propriamente como terror. Não é que dê medo. Não é que você leve sustos. Mas ele causa… desconforto. Como aquela única nota de violino que soa nos momentos mais impróprios pra fazer arrepiar os cabelinhos da nuca.

Fonte: Esquire – Reprodução

Sério, o ritmo desse livro é insano. E as idas e vindas no tempo só deixam tudo mais nervoso. Serpentário é uma obra que exige velocidade por parte do leitor: se você não virar a página seguinte, parece que nunca vai ter paz. Terminei o texto em três dias.

Conversando com a Carol Chiovatto essa semana, consegui resumir algo que eu havia sentido durante a leitura mas que ainda não tinha verbalizado: Serpentário é todo trabalhado em cliffhangers que escapam das fórmulas. Nada daquele gancho barato do “e aí ela abriu a porta e… capítulo seguinte”. Você nem sente que foi fisgado. Os pontos de corte em cada cena são cirurgicamente precisos.

Também acho legal como o Castilho conseguiu ficar trabalhando o tema do livro sem precisar escancarar a referência o tempo todo para quem está lendo. Outro dia, num grupo do Telegram para autores do Norte e Nordeste, estávamos falando sobre como escrever obras de vampiro sem usar a palavra vampiro nenhuma vez. E é meio que isso: sim, as cobras estão presentes de forma literal, mas Serpentário também usa outras ferramentas e símbolos, como as voltas do próprio enredo, queimaduras de sol que descamam, olhos que não piscam… e até menções a Harry Potter, haha.

A voz do Castilho encontra-se bem afiada (e brasileira) nesse texto. Já dava para notar esse efeito em Ordem Vermelha, uma alta fantasia que, embora eu guarde lá minhas críticas, é sensacional para jogar um novo olhar sobre a aventura medieval. Mas talvez, por se tratar de um universo compartilhado e previamente concebido, Ordem Vermelha não tenha dado ao Felipe todas as oportunidades de enfiar o pé na porta e tacar o foda-se para as regras.

(O autor cita nos agradecimentos que Serpentário parece com um dia comum em sua própria cabeça, e isso já diz muuuuita coisa.)

Fonte: Nina Paley – Reprodução

Se alguém que não vivencia a brasilidade for ler Serpentário (e por brasilidade estou incluindo os memes, a política e o Twitter), boa parte da graça do livro vai ser perdida. Como lidar com uma obra que, logo no primeiro capítulo, entrega esse tipo de frase:

“Para Caroline, se Cristo dirigia seu carro, era porque a situação andava tão complicada que até o Cordeiro de Deus precisava ganhar um extra como Uber enquanto não chegava o momento de sua Segunda Vinda.”

Aliás, sem querer estragar a surpresa de ninguém, mas existe um ~certo poema~ lá pela metade do livro que me deixou gargalhando. Gargalhando. Num livro de quase terror.

Para não dizer que só tô aqui rasgando seda pra Serpentário (embora seja isso que eu esteja fazendo mesmo), pesquei alguns errinhos ao longo do livro, entre letras trocadas e palavras omitidas. Nada ah-meu-deus-que-absurdo, mas, se por um lado aprendemos no curso de preparação e revisão que a perfeição não existe, por outro lado os dedinhos ficam coçando de vontade de ajeitar…

No mais, um parabéns a todos os envolvidos nesse livro. Fora do lugar comum, Serpentário é uma mistureba que dá certo. Onde mais você pode falar sobre nazistas ao mesmo tempo em que coloca um dos protagonistas pra usar pochete?