Editor, tradutor, preparador, revisor: esses ilustres cidadãos

11/11/2019
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Fonte: helpingwritersbecomeauthors – Reprodução

Depois de resenhar livros e escrever minhas próprias histórias, fazer parte da equipe da Faísca me trouxe um novo interesse: futucar o texto alheio. Eu já desempenhava esse papel na área acadêmica, revisando teses e dissertações como freelancer, mas eu nunca havia tido uma vivência extensa trabalhando em cima de textos de ficção.

Posso dizer que é tão divertido quanto escrever, mas com duas vezes mais responsabilidades. E, de tanto editar e revisar textos que não eram meus, fui pegando gosto pela coisa e achei por bem me profissionalizar. Além de me tornar uma escritora melhor, era um jeito de arrumar trabalhinhos que me permitissem ficar perto dos livros, das histórias e do mercado editorial.

Em minha não muito extensa porém muito enriquecedora carreira como preparadora e revisora de textos, posso dizer que a melhor e a pior coisa desse trabalho é ser invisível.

Quer dizer, para profissionais que mexem de fato no texto que chega do autor, a última coisa que eles querem é que você fique pensando neles durante a leitura. Porque, se isso acontece, é sinal de que passou algum erro, de que a escrita tá truncada, de que veio parágrafo faltando, de que uma letra foi comida ou de que aquela distância entre Recife e Salvador com certeza está errada.

Quem trabalha com texto tem por objetivo trazer ao leitor a melhor experiência de leitura possível, colocá-lo imerso numa história e só deixá-lo sair após o ponto final da última página.

Infelizmente, isso significa também que poucas pessoas conhecem de fato o papel de cada um destes profissionais na cadeia de produção do livro. É um trabalho que acontece de forma um tanto solitária (mas não de um jeito ruim), e que acaba não transparecendo para quem o consome. Vai, fala com honestidade: você tem o costume de, ao terminar uma leitura, folhear a ficha técnica e procurar saber quem são os profissionais envolvidos? É tipo crédito de filme, né? A gente simplesmente levanta e sai do cinema (a não ser que tenha cena pós-crédito da Marvel).

Fonte: cinematreasures.org – Reprodução

Vou ser sincera: em todos os meus anos como leitora compulsiva, foi só quando comecei a conhecer profissionais do meio que passei a me interessar por fichas técnicas de livros (ou “verso do rosto”). E, mais recentemente ainda, percebi que existe uma grande confusão entre leitores e autores independentes na hora de distinguir ou contratar serviços editoriais.

Se as palavras edição/revisão/preparação/copidesque estão se embaralhando na sua mente, segura na minha mão que eu vou tentar fazer uma pequena introdução a cada uma dessas funções.

Em primeiro lugar, vale fazer um disclaimer: os papéis de cada profissional variam conforme a cultura de trabalho de determinada editora. Cada empresa tem a sua cadeia editorial e a sua própria forma de trabalhar. Eu vou apenas dar uma dimensão das áreas em que cada uma dessas pessoas atua. Também reconheço que, no mercado independente, nem sempre temos condições ($$$) de contratar tanta gente para mexer nos nossos textos. Mas vamos imaginar um lindo mundo hipotético aqui, está bem?

Fonte: Tumblr – Reprodução

  • Edição

Um editor é como um gerente de projeto, só que com um olhar mais crítico e mais afiado sobre a obra. É responsabilidade da edição (em caso de autores nacionais) trabalhar a obra para que ela tenha coerência, para que a trama flua sem barrigas, para que o texto não seja discriminatório sem um motivo justificado pela história, para que os personagens estejam bem desenvolvidos. Em casos de textos encomendados (por exemplo, novelizações de universos compartilhados), é responsabilidade do editor garantir que o autor está entregando algo dentro das expectativas do cliente, e isso inclui tanto a temática quanto a adequação ao público-alvo.

Uma vez que o texto esteja redondinho, o trabalho do editor é acompanhar toda a cadeia de produção: acompanhar o marketing, acompanhar as estratégias de distribuição, verificar as etapas de preparação, diagramação e revisão do texto. Em casos de livros estrangeiros, o editor também acompanha a tradução.

A palavra final sobre qualquer mudança no texto passa pelo editor. A tradução está em dúvida sobre usar a palavra X ou Y? Decide o editor. A preparação acha que vale a pena mudar uma piada porque ela não faz sentido em português? Indica a mudança para o editor. Chegou orçamento da gráfica e vai ficar bem mais barato mudar a diagramação pra uma letra mais apertadinha? Bora conversar com o editor.

É claro que, principalmente em editoras de grande porte, o “trabalho de edição” não é feito somente por uma pessoa. E nem sempre um editor vai ter tempo hábil de acompanhar todas essas etapas de perto. Cada caso é um caso, mas esta é uma aproximação válida.

Para autores independentes: contratar um serviço de acompanhamento de escrita pode ser algo próximo a ter um editor: geralmente, o profissional que realiza acompanhamento trabalha com o autor desde a concepção da história até a publicação da obra, ajudando com as questões mais burocráticas. No mercado brasileiro, esse papel também pode ser desempenhado pelo agente literário (mas essa é outra conversa, para outro post). De novo, cada caso é um caso.

  • Tradução

O tradutor é, dentre os papéis aqui representados, possivelmente o mais conhecido do grande público. Mérito, em boa parte, dos próprios tradutores, que vêm fazendo esforços para que seu trabalho seja melhor divulgado por editoras e produtores de conteúdo. Afinal, a tradução tem um impacto realmente grande na forma como uma história chega ao público, e uma tradução descuidada pode mudar completamente o sentido de uma obra.

Bem, lá vou eu falar o óbvio: o tradutor é a pessoa responsável por traduzir a obra, haha. E é importante que se conheça tanto o idioma estrangeiro quanto o português, para evitar estrangeirismos e construções de frase não usuais para o público daqui. Inclusive, um dos principais desafios da profissão é adequar sentidos e comparações que dependem de vivências culturais.

Numa situação hipotética, imagine uma cena toda calcada em analogias com as diferentes partes do uniforme de um jogador de hóquei no gelo. Mesmo que você saiba a tradução exata de todas as peças (e isso já é um desafio), será que essas analogias estarão claras para um público brasileiro?

Muitas vezes, a tradução insere notas no texto, explicando suas decisões ou a impossibilidade de traduzir literalmente algum vocábulo. Às vezes, esses impasses são decididos pelo editor. Outras vezes, eles se tornam mesmo notas de rodapé e são publicados junto ao texto.

Para autores independentes: caso você queira verter um texto seu (sair do idioma nativo para outra língua) a fim de tentar publicações estrangeiras (e não só editoras, mas também revistas e concursos), vale a pena pensar num tradutor. Esse profissional pode tanto fazer a tradução de fato quanto revisar textos produzidos já diretamente em língua estrangeira. Afinal, mesmo que você seja fluente na gramática de outro idioma, é importante ter o olhar de alguém que conheça os maneirismos e as particularidades de cada língua.

  • Preparação

Num resumo bem resumido, o trabalho da preparação é tornar o texto gramaticalmente correto e gostosinho de ler.

A preparação recebe o texto ou diretamente do autor (no caso de manuscrito nacional) ou diretamente da tradução (no caso de manuscrito estrangeiro). Em caso de traduções, é responsabilidade da preparação fazer o “cotejo” da obra, que significa conferir se todos os parágrafos foram mesmo traduzidos e estão na ordem certa, sem saltos.

O preparador é a pessoa mais desconfiada do rolê. Ele precisa contestar até a própria sombra, e garantir que todas as datas, unidades de medida, crases, hífens e vírgulas estão onde deveriam estar ou são justificáveis. A preparação deve olhar se as frases estão fazendo sentido, se o paralelismo foi mantido, se a grafia das palavras está correta, se não existem ecos e repetições desnecessárias, se nenhum trecho está ambíguo… tudo.

(E é assim que você se pega, num sábado à noite, pesquisando sobre metralhadoras no Google…)

Para auxiliar o preparador (e o tradutor), a maioria das editoras disponibiliza um manual de estilo, que é um documento contendo as principais regras e padronizações adotadas na casa. Também é dever do preparador cuidar da padronização do texto, ainda que o manual de estilo contenha instruções específicas para tradutores, preparadores e revisores.

O famoso “copidesque”, que não deixa de ser um sinônimo para a preparação, é cuidar dos aspectos estruturais e formais do texto. Ou seja, não só garantir que ele está correto do ponto de vista da gramática, mas que também está gostoso de ler, coerente e coeso.

Nem toda editora permite a realização do copidesque (na verdade, depende mais do tipo de livro que se está editando). Textos canônicos e já consagrados, por exemplo, não costumam ser muito mexidos para respeitar o legado e o estilo do autor. O “quanto mexer” é um dos principais desafios da preparação. Afinal, não é fácil tornar um texto “melhor”: melhor sob qual ponto de vista? Devemos sair colocando pontos finais e parágrafos em todas as páginas de Saramago? A preparação é uma etapa que exige bom senso e sensibilidade com o texto. Por causa disso, é comum que algumas decisões de preparação passem também pelo crivo do editor. Conversar com o tradutor e respeitar as notas de tradução são outras excelentes práticas da preparação.

Para autores independentes: no mercado, geralmente o serviço de preparação vem com o nome de revisão. Isso acontece, como vamos ver mais adiante, porque na autopublicação não existe o conceito de “prova”, então o texto que sai da preparação costuma já ser o texto que será diagramado e publicado. Ainda assim, na hora de contratar, deixe claro qual serviço você deseja. Evite surpresas. Se você opta por uma preparação que inclua copidesque, esteja consciente de que a pessoa pode sim fazer mudanças mais profundas nas suas frases. Se não, deixe claro que só deseja adequar a ortografia e a gramática da sua história.

  • Revisão

Depois que o texto sai da preparação, ele é diagramado e ganha a “carinha de livro” que estamos acostumados a ver. Recebe figuras, ficha técnica, tipografia, toda a boniteza do mundo. Um livro diagramado que ainda não foi para a gráfica é uma “prova”. E é aí que entra o revisor.

De posse da prova, o revisor faz um trabalho muito próximo ao do preparador, mas com uma mão mais leve e um olhar mais afiado.

Explico: mudanças grandes, nessa etapa da produção, são bastante custosas. Então nada de ficar trocando seis por meia dúzia só porque o texto fica mais bonitinho. O revisor precisa fazer mudanças cirúrgicas, somente o que for necessário e indispensável.

Isso também significa que o revisor vai ser o último par de olhos por onde passa um livro, o que significa atenção redobrada para pegar errinhos de digitação, páginas puladas, parágrafos que ficaram mal diagramados, sumário incorreto, legenda trocada e qualquer outro deslize que tenha escapado, incluindo separação silábica.

(Momento fofura: o erro que passou por todo mundo e ninguém viu é chamado de “saci” ou “pastel”.)

Algumas editoras optam por criar várias provas, onde um revisor olha o texto após o outro, para garantir uma maior cobertura contra erros. Também é importante mencionar que todos esses profissionais estão conversando: o preparador escuta o tradutor, o revisor escuta o preparador e os revisores seguintes precisam prestar atenção se as mudanças solicitadas pelo revisor anterior foram mesmo acatadas e resolvidas.

Para autores independentes: como falei ali em cima, a revisão e a preparação costumam virar um bolo só na autopublicação. Outras vezes, a revisão fica por conta do diagramador de ebook contratado, ou é feita pelo próprio autor. Na dúvida, lembre de deixar sempre claro as suas expectativas e necessidades. Geralmente, ao contratar um diagramador, uma rodada de “emendas” está incluída no pacote, e aí é o autor que deve dar aquela última lidinha no texto, mas não custa conferir e deixar tudinho por escrito. E bom senso sempre, né: não adianta nada deixar para fazer preparação e revisão com o ebook já diagramado. Só vai gerar retrabalho.

  • Quero trabalhar com tudo isso aí

Os caminhos do mercado editorial são misteriosos e bem pessoais, mas existem diversos cursos e especializações disponíveis para se profissionalizar em cada uma dessas posições (e em outras que não mencionei ou não explorei!). Dentre as opções EAD, recomendo os cursos da Unil, do LabPub e da Casa Educação.

Também recomendo estar em contato com gente que atua no ramo. Segue o pessoal no Twitter, acompanha o dia a dia deles: a vida de mexer com texto é uma coisa muito, muito empírica. Ninguém está 100% pronto para todas as situações e dúvidas que vão surgir. Aprenda a pesquisar saídas e a como se portar nas situações cotidianas. Sempre, SEMPRE respeite os prazos. Também é legal investir em uma gramática bacana, dicionários e outros materiais de consulta.

No mais, é importante ter em mente que somos todos falhos. Ninguém consegue viver nessa carreira sem deixar passar um errinho. A gente vai sempre se doar ao máximo tentando pegar todos os safados dos sacis, mas eles fatalmente vão passar em algum momento. Com o andar das fases editoriais, é possível inclusive que um dos profissionais da cadeia insira erros no texto que não estavam lá no início, ou que já haviam sido resolvidos antes. Nesses casos, o consumidor final jamais ficará sabendo quem foi de fato o responsável. Cabe aí então uma postura profissional: nada de ficar choramingando ou colocando a culpa nos outros. Os sacis simplesmente acontecem. E tá tudo bem. Bola pra frente, mais atenção na próxima vez.

Volto a repetir: o segredo do bom profissional (além de respeitar o tal do prazo) é estar constantemente com a mão na massa.

Fonte: Tumblr – Reprodução